Pesquisa da UEG cria bioinseticida à base de Neem

Uma pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais do Cerrado da Universidade Estadual de Goiás (Renac | UEG) traz inovação ao mercado de combate às pragas. Os pesquisadores desenvolveram um bioinseticida à base de Neem, planta de origem asiática.

Segundo a professora Joelma Abadia, orientadora e coordenadora do projeto, a semente da planta conhecida como Neem (Azadirachta indica A.Juss.) possui constituintes químicos com atividade inseticida, reconhecida pelas culturas populares e por estudos científicos. “Essa planta é nativa da Índia, mas foi muito bem adaptada ao clima brasileiro, crescendo em vários estados, do nordeste ao sul do Brasil”, salienta. A pesquisadora explica que os constituintes da semente da planta, especialmente a azadiractina, têm alto poder inseticida e são biodegradáveis, com baixa durabilidade no ambiente. “Por isso, escolhemos essa planta como nosso objeto de estudo. Nossa pesquisa buscou desenvolver um bioproduto à base de extratos microencapsulados das sementes de Neem”, diz.

Joelma diz que os primeiros resultados mostraram que o produto conseguiu controlar diversos estágios da Helicoverpa armigera, uma lagarta que causa estragos em lavouras como milho, soja e algodão. “Por isso avançamos para o aperfeiçoamento da tecnologia de produção do extrato microencapsulado e para os estudos em semi-campo, inclusive estamos testando em outras espécies de insetos-praga além da Helicoverpa”, ressalta.

O início

A pesquisa teve início em 2013, durante o estágio pós-doutoral da professora no Programa de Pós-Graduação em Inovação Farmacêutica, da Universidade Federal de Goiás, sob supervisão do professor doutor Edemilson Cardoso da Conceição. Na UEG, a aluna Debborah Gonçalves Bezerra deu continuidade à pesquisa, sob orientação da professora Joelma e coorientação do professor Edemilson, no mestrado e no doutorado em Recursos Naturais do Cerrado, este iniciado em 2017. Colaboram também com a pesquisa alunos do curso de Farmácia da UEG vinculados aos Programas de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica, os professores Ivano Alessandro Devilla (ex-reitor da UEG) e Leonardo Luiz Borges, da UEG, a pós-doutoranda da UFG Thais Leite Nascimento e as professoras da Escola de Agronomia da UFG Cecília Czepak e Karina Cordeiro Albernaz Godinho. A previsão é que a pesquisa seja concluída no início de 2022.

Joelma explica que a identificação, por pesquisadores brasileiros, de um inseto-praga altamente resistente aos inseticidas disponíveis no mercado e que causava grandes prejuízos às lavouras de tomate e soja no Brasil, fez com que ela se interessasse pelo assunto. “A Helicoverpa armigera é uma mariposa cuja lagarta se alimenta vorazmente de diversas culturas e, por ser resistente à maioria dos agrotóxicos, é de difícil controle. Muitos pesquisadores estavam envidando esforços na busca de alternativas para o controle dessa praga na época. Nossa intenção, portanto, foi contribuir com esses esforços, pesquisando alternativas naturais, que causassem menos impactos ao meio ambiente e à saúde do trabalhador rural”, destaca.

Para chegar ao resultado do bioinseticida, os pesquisadores utilizaram a microencapsulação por spray drying que, segundo eles, pode proporcionar uma liberação mais lenta do produto na natureza, além de protegê-lo da ação dos raios ultravioletas do sol. Joelma diz que, dessa forma, o produto terá mais tempo para agir e ainda assim manterá suas propriedades biodegradáveis, não se acumulando no ambiente, pois os adjuvantes utilizados no processo de microencapsulação são biodegradáveis também. “Outros produtos semelhantes foram lançados no mercado, mas não com a tecnologia e com os excipientes que nós utilizamos. Nosso produto será de fácil manuseio e aplicação em campo”, ressalta.

Duas patentes foram depositadas com o objetivo de proteger a tecnologia de produção das microcápsulas produzidas. Além das patentes, os pesquisadores publicaram dois artigos científicos em periódicos e os trabalhos foram apresentados em eventos científicos nos últimos quatro anos.

A expectativa dos pesquisadores é que o bioinseticida criado por eles, por degradar com maior velocidade que os produtos sintéticos, tem grande potencial para contribuir de forma concreta, sustentável e segura com o controle de insetos-praga, levando à redução do uso de agrotóxicos convencionais. “A introdução desse produto como parte das estratégias de controle de pragas, o chamado Manejo Integrado de Pragas (MIP), visa justamente reduzir o uso de agrotóxicos convencionais, com a utilização conjunta de diversas práticas e cuidados”, salienta. Joelma diz que o produto é uma alternativa viável para a agricultura, com baixo impacto ao meio ambiente e à saúde humana.

De acordo com a pesquisadora, o produto pode contribuir em outras aplicabilidades, como controle de pulgas e carrapatos em animais domésticos e de corte, entre outras. “Obviamente, para quaisquer destas aplicabilidades serão realizados os ensaios que garantam eficácia, segurança e qualidade exigidos pelas agências reguladoras brasileiras antes do bioproduto ser lançado no mercado. Esses são os nossos próximos desafios”, diz.

Joelma explica que, no estágio em que se encontra, a pesquisa não é capaz de estimar a proporção de redução de agrotóxicos. “Nesse semestre iniciaremos os estudos em semi-campo, com aplicação de amostras do produto desenvolvido em pequenos cultivos contaminados com insetos-praga e não contaminados. A partir daí poderemos fazer algumas estimativas nesse sentido”, sintetiza.

A pesquisa tem o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), das bolsas de mestrado e doutorado da UEG e da Capes. Os pesquisadores também recebem o apoio do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação de Produtos da Biodiversidade da UEG, da Escola de Agronomia e do Laboratório de PD&I de Bioprodutos da Universidade Federal de Goiás.

FONTE: FAPEG (Dirceu Pinheiro | Comunicação Setorial | UEG)

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